Primeiramente, não acredito que há pecado em cantar tais músicas.
O que acho é que isso não seja espiritualmente saudável.
Virou moda fazer música com letra e arranjo melancólico para apelar ao emocional do povo.
Assim, quando alguém ouve a música e se emociona acha que a “atmosfera” que a música criou vem da presença de Deus, quando na verdade não passa de emocionalismo e manifestação dos sentimentos do ouvinte.
Nada tem a ver com a presença de Deus. É apenas música e letra carregada de melancolia.
Quem conhece os efeitos da musicoterapia sabe que a música tem um poder quase miraculoso.
Nessas músicas é muito comum vermos erros teológicos e de cosmovisão. Quando Deus não é tratado, nessas canções, como mordomo e escravo, é retratado como alguém de paixão adolescente e infantil, num relacionamento cujo o amor sempre é platônico.
Quando não há erros teológicos, há claros elementos linguísticos para trazer à música toda a carga emocional necessária para fabricar a falsa sensação do “mover de Deus”.
O mover de Deus que até pouco tempo atrás era verdadeiro e espontâneo, hoje é falso e humanamente fabricado.
É triste associarem emocionalismo e induzimento psicológico, através da música, à presença de Deus.
Não obstante isso, a adoração a Deus fica em segundo plano, pois o que se busca através desse tipo de música é proporcionar ao ouvinte o êxtase musical que erradamente atribuem à Glória de Deus.
O que se quer na verdade é a experiência inebriante da música.
Antigamente fazíamos música para tocar o coração de Deus. Hoje compomos para tocar as emoções dos homens.
Para corroborar com minha tese analisemos o excerto da música a seguir:
‘O que tua glória fez comigo’
“Eu me rasgo por inteiro
Faço tudo, mas vem novamente
Eu mergulho na mirra ardente
Mas peço que Tua presença aumente”
Algumas perguntas devem ser feitas sobre essa letra.
Pergunta 1. De onde tiraram essa mirra ardente? De qual texto bíblico? Qual o significado disso?
Pergunta 2. Ou alguém está ou não está em algum lugar, como alguém pode aumentar a sua presença em um determinado lugar? Ou a pessoa chegou e está em um determinado ambiente ou ela não está ali, não tem meio termo.
Essas duas perguntas revelam um pouco sobre o tipo de música que estamos ouvindo.
Na primeira pergunta a resposta é simples: não há na Bíblia qualquer menção a mergulhar-se em mirra ardente.
A explicação mais lógica para isso é o fato do autor tentar colocar na letra elementos de mistério para criar um ambiente e uma sensação de algo misterioso e sobrenatural.
A tentativa de justificar essa frase no fato que a mirra é amarga, mas depois de queimada torna-se um incenso doce e suave é insuficiente, pois deveria haver um comparativo com a mirra e não uma ação de se mergulhar nela. Ou seja dizer que mergulhar na mirra ardente é sinal de sofrimento não tem sentido.
Em algum lugar da Bíblia alguém já fez ou citou isso?
Agora se for para comparar com o processo de produção do incenso talvez teria algum sentido, mas a música não deixa isso claro.
É como dizer: quero ser purificado pelo fogo, assim COMO (elemento comparativo) o ouro é purificado pelo fogo. Ninguém diz querer mergulha no ouro para ser purificado.
Logo, fica claro que o autor dessa letra quer recheá-la com elementos místicos e misteriosos, induzindo o ouvinte a entrar num estado de apreensão e êxtase, falsa noção de espiritualidade e sobrenaturalidade.
Na segunda pergunta a coisa piora.
O autor acha que a presença de Deus é algo mensurável e sensível, ao ponto de dizer se a presença de Deus está aumentando ou diminuindo, tudo isso baseado, obviamente, pela sensação que a música está causando.
Na verdade, esse trecho revela uma visão ou percepção sensorial daquilo que é experimentado nos cultos que, ao contrário do que se pensa, nada têm da presença de Deus, apenas demonstrações de sentimentos e emoções meramente humanas.
A isso, muitos, equivocadamente, têm chamado de presença de Deus ou Glória de Deus.
Já reparou que nessas “manifestações da presença de Deus” a reação do povo está longe de ser a reação do profeta Isaias (Isaias 6.5) quando viu que estava na presença do Deus Todo-poderoso?
O que há na verdade é choradeira e afloramento dos sentimentos causados, não pelo Espírito de Deus, mas pelo arranjo triste e com uma letra, geralmente, cheia de romantismo "santo" e vazia das verdades bíblicas. Ali há remorso, com certeza, arrependimento genuíno, nunca.
Digo e repito, um show de bandas como Coldplay, Radiohead, U2, Caspian, Tycho, etc podem provocar a mesma sensação de êxtase que essas músicas “de adoração” provocam.
O problema não é o estilo da música, o ritmo ou qualquer outra questão musical, o problema é que essas bandas, que se auto entitulam como ministérios, fazem músicas deliberadamente para emocionar e gerar esse êxtase, que todo mundo hoje adora, chamando de presença de Deus.
Uma sessão de musicoterapia também proporciona um resultado muito parecido, inclusive esse tipo de terapia ajuda pessoas com depressão e câncer. A música é incrível.
Portanto, deixemos de adorar nossos sentimentos e emoções nos cultos. Deixemos de buscar a qualquer custo o êxtase musical nas reuniões.
Não há nada de errado se emocionar no culto ou na presença de Deus.
Ana, chorava de forma intensa ao pedir filhos a Deus.
Maria lavou os pés de Jesus com suas lágrimas e os enxugou com seus cabelos.
Nada há de errado com derramar o seu coração diante do Senhor, desde que isso seja impulsionado pelo agir do Espírito Santo e não por uma técnica humana e artificial.
Que seja o Senhor que toque nossas almas, emoções e nossos sentimentos.
Que seja a presença de Deus a gerar em nós a reação de Isaias - Ai de mim, porque sou um homem de lábios impuros.
Que não seja os acordes menores a nos emocionar, muito menos os solos na guitarra com delay's e reverb's estonteantes.
Que não seja a melancolia deliberada nas letras (sem Bíblia) a nos fazer cair no choro, mas sim a Palavra de Deus cantada, gerando em nós o verdadeiro arrependimento.
Não vou nem entrar no mérito de quanta mentira está sendo cantada hoje.
Vemos músicas que destoam completamente da vida de seus autores.
Em muitos casos não há verdade quando se canta, o que há são jargões evangélicos repetidos infinitas vezes, mas que não encontram eco na vida daqueles que cantam.
Não sou contra as canções espirituais geradas durante as orações e adoração a Deus, desde que elas sejam espontâneas e genuínas.
Quando alguém senta para compor uma canção e pensa em quão emocionante e tocante aquela música vai soar, perde-se aquilo que há de mais belo no agir de Deus: o agir de Deus e não do homem.
Também não vou entrar no mérito de que hoje em dia quem ocupa o lugar central de nossos louvores tem sido, o milagre, a benção, a nossa vitória e o próprio homem.
Deus nesses casos é apenas aquele que executa os nossos planos e nos dá aquilo que queremos.
O louvor brasileiro está de mal a pior.
Prova disso é vermos aumentando a quantidade de traduções de músicas americanas (igualmente ruins).